O Primeiro Português (ou a Inesperada Piada Infame)

Já peregrinava há 4 luas, quando finalmente avistou seu destino. Uma vila com um centro comercial de tamanho considerável, onde vários povos de várias culturas se encontravam para trocar especiárias.

José e sua mula andavam com este mesmo objetivo até a cidade, procurando um comerciante em específico que havia combinado de encontra-lo numa estalagem conhecida para trocarem seus produtos. Já se conheciam há muitos anos e eram muitos amigos, mas era a primeira vez que José o encontraria nesta vila.

Chegando a entrada, um soldado abordou José, dizendo “Alto lá! Se tu pretendes passar pela avenida principal para visitar a Estalagem Enigma Saltitante, a Praça Comercial, a Casa da Mãe Joana e Bairros Residenciais, evites a marginal, pois está com o pior engarrafamento desde 5301 a.C., já que por ali peregrina o Messias!”

José agradeceu-o pelo aviso e achou conveniente, pois sabia que passaria exatamente por aqueles lugares. Evitou a marginal, passou na frente da Casa da Mãe Joana, que, diga-se de passagem, era o melhor salão de festas da região, e chegou à Praça Comercial.

Por ali andou e observou todos os tipos que a frequentavam. Altos, baixos, magros, gordos, muito gordos, muito magros, feios, uns menos feios, mas basicamente todo mundo feio, inclusive José. Observou também uma figura velha, de túnica branca, montar um palanque de madeira (ou também uma pequena caixa que antes guardava tomates), subir em cima deste e anunciar “Ouçam todos! Ouçam todos! Ouçam aos recados e avisos deste dia! Hoje, ao meio dia, teremos o apedrejamento diário. A condenada de hoje é Maria, por traição! Temos também o jantar comunitário para os mais pobres, logo mais à noite! Não se esqueçam também de pagar suas dívidas e taxas. Lembrem-se: se não pagarem, amanhã pode ser você no apedrejamento! Para mais informações, deixem seus recados na caixa de mensagem!”. A figura se calou, desceu do palanque, desmontou-o e seguiu seu caminho.

José achou interessante as atividades da cidade, mas não tinha tempo para diversões, tinha que ir ao encontro de seu amigo mercador que já esperava há muito na estalagem Enigma Saltitante.

Ao chegar no seu destino, José foi saudado por seu amigo “José! Grande José! Já te espero há tempos, meu caro amigo! Chegastes bem na hora! Tenho uma surpresa para ti. Comprei dois ingressos para o apedrejamento, bem próximo da condenada. Poderemos ver de perto e, com sorte, jogar algumas pedrinhas!”. José, sem ter como recusar, seguiu seu amigo até o campo.

Chegaram, pegaram seus assentos sem problemas, compraram pedras de um vendedor que passava logo ali e aguardaram o início. O carrasco entrou em campo com Maria, foram para o meio, todos se preparavam e tomavam suas posições de lançamento, quando ouviu-se um tumulto ao longe.

“É ele! É ele” José ouviu a multidão gritando enquanto dava passagem ao homem que corria por entre as pessoas. Um homem alto, muito forte, cabelos longos e loiros, olhos azuis, barba cerrada, correu até o centro do campo sem cansar! Parou ao lado de Maria e gritou “PAREM! PAREM TODOS! QUEM SÃO VOCÊS PARA JULGAREM ESTA POBRE MOÇA? QUEM NUNCA ERROU, QUE ATIRE A PRIMEIRA PEDRA!”.

José, desafiado, pegou a pedra e arremessou esta, que fez uma parábola perfeita até a cabeça da Maria, que caiu desmaiada! O homem urrou “ESTÁS LOUCO?! NUNCA ERRASTES NA VIDA?!

José respondeu “Ora, pois! Desta distância, nunca!”

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The Martian (ou A Inesperada Volta das Postagens)

Oi eu sei que faz tempo que eu não posto aqui mas isso é irrelevante tão irrelevante que nem vou explicar nem colocar pontos nessa frase bora pro post.

[aviso quando tiver spoiler]

Há muitos e muitos anos atrás (tipo uns 4 meses), saiu um teaser viral de um filme com o Matt Damon no espaço. “Mas ué”, pensei, pois tinha acabado de rever Interstellar e lá estava o mesmo carinha, numa nave um tanto parecida, um pouco menor, porém sozinho e embalado a água.

A explicação viável: não tinha nada a ver com Interstellar.

Spoiler (não é sobre o filme, pode ler): Não tinha mesmo. Era o anúncio de um outro filme, inspirado num livro recente e que ganhou muita notoriedade por ser uma ótima ficção. Só sei isso do livro, desculpa.

Quando eu digo que não tem nada a ver com Interstellar, é porque não tem mesmo. Okay, tá bom, é um filme de viagem espacial, naves e Matt Damon, mas não vá esperando uma explosão de cabeças e super ciências malucas que vão derreter seu cérebro. E se você estiver esperando um Gravidade, de tirar o fôlego a cada cena, corre pra lá, voa pra cá, vai pra estação chinesa, uhul. Não também.

Uso esses dois filmes como referência porque é o que tem de melhor sobre ficção científica espacial recentemente. Bom… Agora são três filmes, pois The Martian trouxe algo, não diria novo, mas diferente. Poderia resumir como um “O Naufrago” em Marte, para quem ainda não assistiu. Agora vai logo assistir… Sério, vai agora… pode ir, eu vou ficar aqui esperando você voltar… Isso, levanta da cadeira… Pode parar de olhar pra tela do computador, vira pra frente e vai pra porta… Anda logo, para de olhar pra cá, pode abrir a porta… Já foi? EI! Eu tô te vendo aí, por favor sai agora e vai lá assistir… Isso, tchau! NÃO, PERA, VOCÊ ESQUECEU A CARTEIRA! Isso tá ali em cima do criado… Tchau! Bom filme!

Agora que eles, que não viram o filme, já foram embora, podemos começar com os spoilers!

Que filme gostoso de assistir, pulta que pariu! Que aventura show! Não é nada pretensioso, não tenta ser um filme GIGANTE, com várias voltas, muito complexo. Contudo ele consegue ser tenso nos momentos certos! Você, já treinado em filmes, fica o tempo todo torcendo pelo Matt Damon, mas fica esperando uma merda enorme acontecer a qualquer instante. Apesar de algumas merdas acontecerem, tudo continua bem porque todo mundo ali tá determinado a ajudar aquele personagem e ele tá disposto a viver!

Pensa comigo: Você sofre um acidente em Marte, sua equipe é obrigada a te abandonar, você é dado como morto, você acorda enterrado num monte de areia, você está sozinho em Marte. EM MARTE! Eu, do interior, não teria força de vontade de viver se acordasse no metrô de São Paulo, imagina EM MARTE OUTRO PLANETA LONGE PRA CARALHO SOZINHO SEM COMUNICAÇÃO!

Qualquer um ficaria chateado, abatido, sem vontade de cantar uma bela canção, mas por Deus! Esse é o Joseph Climber do espaço! Ele poderia ter desistido, mas não! Ele decidiu sobreviver, decidiu que esperaria 4 anos pela próxima missão em Marte, decidiu reunir suprimentos e fazer cálculos e, por fim, decidiu plantar batatas… em Marte… usando ciência, bitch!

Sobrevivência é, possivelmente, o tema que mais me atrai em ficções. E talvez seja por isso que eu joguei, quase todos os dias, durante dois anos, o famigerado Minecraft. O ser humano moderno, reduzido a humano, praticamente, das cavernas em questão de tempos, tendo que redescobrir aspectos da sua humanidade e da natureza que, hoje a gente nem tchum. Se esse não é um ótimo tema, eu não sei o que é.

Todas as manobras que Mark Watney faz sozinho e com ajuda do pessoal da Terra, são incríveis e totalmente palpáveis no mundo real. Menos o oxigênio que nunca acaba jamais infinito pra sempre gameshark código hacker da vida. Isso ficou meio sem explicação, meio sujeito a interpretação. O tempo todo se fala de recursos e como eles são escassos, mas o oxigênio quase nunca falam sobre e só deixam a entender que, na estação onde o Watney fica, tem um puta suprimento de oxigênio nunca mencionado, pra suportar 6 pessoas, porém ele tá sozinho, então não acaba. O que fica inconsistente nisso é a proporção, já que a comida, de 31 dias pra 6 pessoas, duraria pouco menos de um ano pra uma pessoa, mas o oxigênio tem pra cacete pra mais de dois anos.

Essa parte talvez seja a única que o filme peca para o que ele propõe. Contudo, vi comentários sobre o filme apresentar muitos personagens e não se aprofundar em quase nenhum deles. De fato isso acontece. Porém não é um ponto negativo e, talvez, o mais sagaz do filme. Explico:

Matt Damon é um cara que foi abandonado morto em Marte. Aí descobrem que ele não está morto, na verdade, muito pelo contrário, ele está tentando sobreviver num ambiente completamente adverso à vida humana. Isso traz nas pessoas, por mais piegas que pareça (e a palavra piegas já me parece muito piegas), uma esperança. Todo mundo, quase que literalmente (apesar do foco no EUA), se junta para conseguir voltar pra Marte a tempo de salvar a pessoa que está sobrevivendo em Marte. O fato de não aprofundarem nos personagens da Terra, nem muito nos colegas de tripulação do Watney, serve para mostrar que não importa quem está ajudando, não importa quem são, quem eram e quem vão ser aquelas pessoas. O importante é salvar um ser humano que conseguiu plantar batatas em outro planeta. O ser humano que provou a possibilidade de se viver em outro planeta e os vários avanços que isso traz para a humanidade. Se um conseguiu se virar, outros também podem.

Para pra pensar: Primeiro nós descemos das árvores, voltamos e descobrimos que é seguro. Depois saímos das nossas tribos, voltamos e descobrimos que é seguro. Então saímos do nosso continente, voltamos e descobrimos que é seguro. Se em alguma dessas etapas, alguém não tivesse voltado, talvez nem sairíamos de novo.

Não se trata de salvar um homem, se trata de provar que estamos prontos para dar mais um passo na evolução humana.

Enfim, o filme é muito bom! Fotografia fantástica, direção do Ridley Scott ótima e diferente do que ele já fez “fora da Terra”, trilha sonora foda (vou só citar Starman, do David Bowie, que eu tô ouvindo desde que comecei a escrever esse post) e história sensacional e honestíssima!

E se você leu isso aqui sem ver o filme, porra que vacilo… Mas vai ver sim, porque eu não comentei UM MONTE de coisas sobre. CORRE CARAI!The Martian