Outro Tiozin! (ou O Inesperado Conto da Madrugada – Parte Final)

Um Maluco entrou pela porta e disse “Oh tiozin! só cala a boca, passa o que tivé e fica tudo certo! Cê e o Outro Tiozin

Quando acordou, não esperava ver o cano preto da morte. Ninguém espera. Seria apenas mais um dia normal…

Acordou com o despertador às 5 da manhã. Ele e a mulher se levantaram em sincronia e caminharam até o banheiro no mesmo ritmo sonolento. Tantos anos de casados permitiam o desfruto da intimidade. Enquanto ele tomava banho, ela usava as outras partes do banheiro, depois trocavam de lugar e por fim, enquanto ela terminava o banho, ele saía para quarto, vestia uma roupa leve, calçava o chinelo e se dirigia até a porta.

Todo dia andava até uma padaria perto para comprar o desjejum. Achou essa manhã particularmente especial. O céu cinza e a brisa fresca o lembravam de um inverno que a muito não presenciava. O orvalho das poucas árvores que encontrava no caminho o fazia esquecer da sua asma por rápidos momentos. Fazia questão de caminhar esse percurso todos os dias.

Na volta para casa cruzou com Um Cara, “Opa! Tudo bem? Já vai pra mercearia?”, disse ao cara, “E aí! Tudo tranquilo! hahaha tô indo bem cedo hoje, senão me atraso pro serviço, né”, respondeu ao homem. Pediu para o cara mandar um abraço para seu amigo, dono da mercearia, que era seu amigo de longa data.

Ao chegar em casa, deixou o saco de pão ao lado da cafeteira quente. Sua mulher já havia feito o café e agora seu arrumava no quarto à passos módicos – aproveitava a recente aposentadoria – enquanto ele se sentou no sofá da sala com uma xícara na mão e ligou a TV. Assistia a um programa sobre a vida na selva.

Era sobre um leopardo que caçava um babuíno. Depois de eliminar sua presa, o leopardo descobre que ela carregava um bebê, agora órfão. O felino adota e cuida deste pequeno macaco como se fosse sua cria. O homem se perguntava se a mãe natureza era linda, justa ou as duas ao mesmo tempo.

Antes que pudesse encontrar uma resposta, sua esposa sentou ao seu lado, pegou o controle remoto e disse “olha, muito bonita a história, mas se eu quisesse tanto drama assistiria a novela” e ele respondeu “hahaha eu já tenho que me arrumar mesmo”. Se levantou e foi até o quarto se vestir para o trabalho, mas ainda conseguia ouvir um pouco a TV “… mais um assalto a mão armada deixa vítimas no centro da cidade. É o terceiro em um mês. A polícia desconfia que todos foram executados por um mesmo indivíduo…”.

Não deixou de notar um comentário feito pela esposa “Cruzes! Se eu quisesse tanto drama assistiria ao Animal Planet!” e esboçou um sorriso. Sempre que sorria assim se lembrava porque havia se apaixonado por ela. O bom humor dela sempre facilitou todas as dificuldades que enfrentaram juntos ao longo dos anos. E isso o fazia sorrir mais.

Terminou de se vestir, deu um beijo em sua mulher e foi para o trabalho. Sempre gostou de sua profissão, mas o tempo o pegará de jeito e pensava em acompanhar sua esposa na aposentadoria. No horário de almoço, enquanto ia para um restaurante, recebeu uma ligação. “Alô, pai, tudo bem? Só liguei pra avisar que cheguei aqui! O voo foi tranquilo e o hotel que a empresa me mandou é bacaninha até. A Juliana não pôde vir, tinha que fazer um outro ultrassom, mas tá tranquilo, a irmã dela foi junto![…]”.

Seu trabalho de contador se estendia até às 17h da tarde, às 17h30 ele saía e voltava para casa. Porém, hoje, se lembrou da conversa que teve com Um Cara e decidiu fazer uma de suas visitar ao seu velho amigo da mercearia. Ligou para a mulher e avisou que chegaria mais tarde, “aaah fala pra ele que estamos convidando-o para um almoço aqui no domingo e que é pros filhos deles virem também!”, ela disse antes de desligar.

Pegou um ônibus e chegou no estabelecimento do amigo por volta das 18h00. Conversaram por um tempo, tomaram uma cerveja, relembraram velhos momentos e combinaram próximo encontro no domingo.

Nunca mais se veriam. Nunca mais veriam ninguém.

Às 19h27, Um Maluco entrou pela porta e disse “Oh tiozin! só cala a boca, passa o que tivé e fica tudo certo! Cê e o Outro Tiozin

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Na manhã seguinte, Um Cara fazia sua caminhada matinal até uma mercearia. De longe ele avistou um movimento na frente da loja. Algumas pessoas, ainda de pijama, estavam na rua, enquanto a polícia conversava com alguns moradores do bairro.

Ele se aproximou de um jovem e perguntou “Oi, com licença, que que aconteceu aí?”, o jovem respondeu “Você não ficou sabendo? Ontem subirusdoistiozin que estavam aqui na mercearia…”

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