Her (ou Os Inesperados Questionamentos)

Finalmente assisti Her. Foi uma saga épica do ponto em que decidi assistir até o momento em que os créditos subiram. Mentira. Na verdade foi uma longa jornada cheia de adiamentos da minha parte e por um motivo em particular: eu detesto romances românticos.

Okay, vamos do início. Tudo começou em Janeiro de 2015, quando eu procurava um filme para alugar no Tempo da PipocaTV™ e vi o cartaz do filme. Pensei “poxa já ouvi falar, fiquei curioso pela parte da ficção científica, mas tem aquelas parte de romance meh” e dei play para assistir, porque não custa nada, afinal (brigado internet).

Depois de 15 minutos assistidos, estava extremamente incomodado com as legendas dessincronizadas, o filme começou a travar e todo começou a parar, demorava 10 minutos pra passar 10 segundos de filme o audio tava travando tava ficando tudo horrivel meu deus do céu que que ta aconteno as coisa tao paranominhainternetnaoeramaisamesma… Fechei o aplicativo de locação ilegal de filmes e as coisas voltaram ao normal.

Eu poderia ter tentado outro dia? Poderia. Eu poderia ter simplesmente alugado por outros métodos ilegais? Poderia. Poderia ter comprado o filme? Oras! Mas é claro que poderia! Porém eu decidir simplesmente não ir atrás, que, talvez, tenha sido a pior das opções.

“Tudo bem, mas então como você assistiu?” você finge perguntar nesse momento…. sério… finge que você me perguntou… não! não agora! espera eu terminar, aí você me pergunta! tá, quando eu contar até 3 você pergunta 1…. 2…. NAO! ESPERA EU TERMINAR! Okay, vai lá 1…. 2…. 3…. “Tudo bem, mas então como você assistiu?”. Bom, eu te digo! O Tempo da PipocaTV™ tinha morrido, mas como uma fênix em chamas ressurgiu das cinzas e voltou a funcionar mas não conte pra polícia.

Se eu fosse inteligente o suficiente, estudaria muito, passaria na melhor faculdade de física, me formaria, faria pós graduação, mestrado, doutorado, tudo que fosse possível na área de física quântica, faria inúmeros estudos sobre teoria de cordas, faria experimentos, tiraria conclusões, entenderia o universo e como ele funciona, criaria uma máquina do tempo, voltaria no dia em que eu decidi não assistir Her e daria um soco na minha cara.

Sei que disse que detesto romances, mas tem uns tão ótimos, com histórias tão boas, com desenvolvimento tão bacana e situações tão reais que acabo ficando sem alternativas, me resta só gostar para caralho do filme e aplaudir que fez.

Sobre esta película (chegou aquele momento em que eu já usei todas as palavras sinônimas à filme e agora tô só apelando para o dicionário online): É um tripé apoiado em romance, drama e ficção-científica (desculpa, não sou profissional da área de catalogação de filmes). Se passa num futuro tétrico e palpável. Tão possível que TALVEZ – e isso é só um talvez – alguém, no futuro, criou um máquina do tempo e mandou Her para o passado (e não pra dar um soco na sua própria face) e que, na verdade, é um documentário.

Her já começa te situando no universo em que se passa. Acompanhamos a vida de Theodore que tem o peculiar emprego de escrever cartas de fulaninhos para fulaninhos próximos. É tão bizarro que ele escreveu cartas de amor de um casal desde o começo do relacionamento e sabe detalhes tão íntimos que possibilita as cartas ficarem mais profundas.

Tendo esse contexto, vemos que Theodore é, ao contrário dos seus clientes e do que suas cartas mostram, sozinho e muito deprimido graças a alguns acontecimentos entre ele e sua esposa. Com um pouco mais sobre o universo, descobrimos que o mundo todo é literalmente conectado, você está sempre com um smartphone e um fone de ouvido em que consegue ouvir propagandas de outdoors nas ruas e fazer tudo o que já fazemos hoje, só que de modo muito mais assustador.

Com seu fone, Theodore ouve sobre um novo sistema operacional/inteligencia artificial muito avançado e decide adquirir. Ele pede, o treco chega por encomenda, ele abre, instala, o computador pede informações e preferências, o cara fala tudo, conta da mãe, o computador manda “aguarde um instante vamos estar te transferindo” e de repente:

– Hi.

Você ouve a voz de Scarlett Johansson como a Inteligência Artificial, mas não igual as outras vozes de computadores que estamos acostumados. Não é aquela voz pausada e robótica sem emoção. Ela fala “Hi”, mas a voz dela dá uma leve falhada, tipo aquele “oi” tímido que você manda quando acaba de conhecer alguém bacana.

Nesses primeiros momentos de conversa a IA decide se chamar Samantha por que ela achou o nome bonito e você, junto com Theodore, percebe que não é uma simples inteligência artificial.

O filme faz um paralelo muito interessante ao mostrar alguém deprimido, sozinho, num mundo onde as pessoas estão mais distantes e frias, aprendendo a sentir sentimentos com um Sistema Operacional que também está aprendendo a sentir e esta se descobrindo. É uma troca de conhecimentos e aprendizagens entre um ser humana e uma inteligência artificial.

Toda ficção-científica boa tem que te trazer questionamentos e esse Her me trouxe vários. Porque o relacionamento entre um humano e um robô é tão creepy, pelo menos a primeiro momento? Porque o robô sentir parece algo tão falso? Só porque ele teve uma base programada? O que difere os pensamentos de uma máquina dos pensamentos de um humano, sendo que a máquina por si própria?

Samantha realmente foi programa, mas foi só sua base de aprendizado. Ela realmente está aprendendo a pensar por si só, a ter sentimentos, a ter consciência. E não é isso que nos separa dos outros seres? A consciência não é o fator principal para nos qualificarmos como os “seres racionais” deste planetinha? Só porque ela não tem forma física em si quer dizer que ela não pode amada ou ser amada? Só o contato físico é o importante numa relação? Não sou eu ou quem fez o filme que vai te responder essas perguntas.

Her tem a magia da aplicabilidade, não impõe um pensamento ou uma ideologia, te faz pensar e você, com sua história de vida, com sua bagagem, com seu contexto, encontra as respostas e o que sentir diante destes questionamentos.

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