Meu Amigo.

Você nasceu no mesmo dia que eu. Passamos todos meus quase 21 anos um ao lado do outro, mas só nos notamos em pouco menos de 2 anos.

Eu, sem saber, cuidei de você por todo esse tempo e você, claro, retribuiu. Te escondi quando as pessoas, inclusive eu, tentaram te enfrentar. Você me protegeu de encarar muitas situações perigosas, que podiam machucar meus sentimentos.

Já me falavam de você, te conhecia por outras pessoas. Minha mãe me alertou sobre você por vários anos, mas nunca dei muita bola. Não era comigo, então não me importava.

Os alertas começaram quando eu tinha apenas 12 anos. Meus pais haviam se separado, me mudaram de colégio e, então, os primeiros sinais da sua influência sobre mim apareceram. Foi horrível, mas você se afastou quando eu voltei para o meu colégio anterior – estratégia de minha mãe para me afastar de péssimas influências como a sua.

Ineficaz. Uma vez que algo desse porte entra na sua vida, não há como impedir o contato.

Cada vez mais você influenciava quem eu era, como eu me comportava em grupo, como eu tratava cada um individualmente, como eu falava, como eu andava, como eu dormia, como eu comia, como eu respirava.

Cheguei a engordar. Engordar muito. A médica me dizia “Está vendo aqui? Você se qualifica como obeso!”. E você me cobrava isso todo santo dia. Toda olhada no espelho, todo banho tomado, todo esporte praticado, toda rejeição. Você dizia que eu era gordo.

Me achava burro. Você também. Você comparava com meus colegas de sala cada décimo a menos que eu tirava na prova.

Com a vontade de criar arte, mostrei cada pequeno trabalho que fiz para você e a alegria que sentia por cada um. Você dizia estar bom, mas que talvez era só coisa da nossa cabeça, que talvez todo mundo fosse me achar péssimo.

Não só como artista, mas como pessoa, eu fui me fechando numa bola, porque você me dizia que assim estaria protegido. Não enfrentaria as pessoas e não sofreria.

“Que grande amigo tenho”, eu pesava sobre você, “Me protege do destino horrível que o mundo reserva para alguém tão péssimo quanto eu”. Sempre fui muito dramático, você sabe. Não posso te culpar por tudo.

Em 2014 vivi o, até agora, momento mais importante da minha vida. Afim de ajudar meu pai, tive que sair da bolha que você construiu para mim. Não que eu não gostasse dela, mas você entende, né? Eu precisava fazer isso tanto pelo meu pai, quanto por mim.

Na verdade… Acho que você não entendeu muito bem na época. Fez de tudo para me atrapalhar. Era um retrospecto da época em que mudei de colégio. Você me afetava mais do que nunca. Peço perdão ao meu pai por não ter conseguido dar o melhor de mim, mas ainda não conhecia o alcance dos efeitos que você tem sobre mim.

Não foi o melhor ano de todos. Engordei 12kg além dos que eu já tinha em excesso. Fiquei mais recluso do que antes, apesar de estar entre pessoas. Tudo por você.

Também não foi o pior ano de todos. Fora da sua bolha, aos poucos fui treinando sair da reclusão. Aprendi a conversar com as pessoas, olhar no olho, ser sincero. Descobri, depois de anos 2 fora do colégio, o que eu queria fazer da minha vida, encontrei um foco. O mais importante, talvez, é que comecei a enxergar você e o que é capaz.

No começo de 2015, ameaçado, você me responsabilizou por tudo de ruim que havia acontecido no ano anterior. E eu comecei a procurar soluções. Fui atrás de profissionais que pudessem investigar e me dizer quem é você de verdade.

Foi com a ajuda de um psiquiatra e um remédio que encontrei uma forma de controlar o que você fazia em mim.

Foi com a ajuda de um psicólogo que aprendi táticas para me desvencilhar de você quando decidisse intervir na minha vida.

Foi assim que eu pude ser eu. 2015 passava e pela primeira vez na minha vida, com 20 anos, eu me sentia: inteligente, interessante, sociável, com algum valor.

É assim que hoje sei te identificar. Sei as formas que você toma e como elas me afetam. E, mais importante, sei que você vai estar comigo até o fim.

Não só isso, mas aprendi a ver seu lado bom. Aprendi a te ouvir quando você aparece para me proteger. Aprendi que você é parte do que eu sou hoje e não posso te negar.

Você me ensinou a sobreviver. Eu estou aprendendo a viver.

E nesta madrugada de uma segunda-feira você vem a mim, na sua visita rotineira, com as preocupações e os afazeres da semana. E eu venho aqui escrever esse relato, não querendo que leiam, mas para me lembrar de como você já moldou e mudou minha vida a sua maneira e porque não vou deixar que aconteça novamente.

Setembro é mês do meu aniversário. Também é conhecido Setembro Amarelo, mês da conscientização sobre a prevenção do suicídio e suas causas.

O distúrbio de ansiedade afeta muitas pessoas, cada uma de formas diferentes. Procure informações sobre, tente ajudar as pessoas mais próximas de você que, as vezes, estão sofrendo e não sabe identificar o porque.